quarta-feira, 9 de novembro de 2016

entre 1989 e 2016 passaram vinte e sete anos



Hoje é dia nove de novembro de dois mil e dezasseis e, pelas nove da manhã, li a notícia de que a alimária alarve do Donald Trump tinha vencido as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América. (Vou passar à frente a cena das 9 horas da manhã do dia 9 de 9embro e da associação esotérica ao número da besta ao contrário.)
Primeiro foi o choque, depois a incredulidade, depois outra vez o choque, depois o medo, a revolta, a tristeza e, finalmente, a negação. Por essa altura, decidi só trabalhar muito e fazer de conta que não foi nada. Que o dia não aconteceu. Trabalhei e fiz de conta muito mal, como seria de esperar. Falei com uma amiga (foi a Teresa Castro) que estava tão triste e assustada como eu. Ambas incapazes do consolo mútuo que era preciso. Entretanto fui correr e ocorreu-me algo que disse uma vez o Pedro Mexia, e que explicava a compulsão de escrever pela necessidade de fazer sentido das coisas. E agora, ocorre-me escrever o seguinte.
 
Tenho um amigo, com quem também falei hoje, historiador como eu mas melhor ele não me deu ordem de citação por isso ficará anónimo (foi o Flávio Miranda) que, perante o meu choque, medo e tristeza, apontou o sentimento mais positivo do privilégio que é, para os profissionais da nossa arte, poder testemunhar e, quem sabe registar, qual era a palavra?... pois, o Apocalipse.
 
Eu sei que ele estava a brincar com aquelas coisas da ironia e do riso. Quem ri não tem medo, e isso tudo. Também sei que, no metatexto, ele esconde (às vezes não esconde) uma daquelas palavras gordas que dão jeito quando vamos descalços contra a esquina da cama, que começam em f acabam em e, e no meio tem oda-s. É, digamos, a palavra do dia. O problema é que os palavrões não me servem. Nem para desabafo nem para consolo.

Eu acordei a sério para a política e para o mundo em 1989, com a libertação de Nelson Mandela e a queda do Muro de Berlim. Tinha quinze anos, ainda não votava mas sentia o arrepio da expectativa de algo bom. Um arrepio como aqueles que sentimos ao ouvir a Carmina Burana, cantada ao vivo por um coro que está de pé a três metros da nossa testa.
Houve outros arrepios assim nos anos que passaram. Momentos universais e heróis que reconhecia e admirava como tal. Houve aquela manhã em que dei um beijinho ao Xanana Gusmão já depois do Prémio Nobel da Paz. Mas também é verdade que, nos últimos anos, dependemos cada vez mais do Cristiano Ronaldo para podermos apontar um herói universal que seja imediata e universalmente reconhecido. A evolução natural desta situação é que se vá perdendo a capacidade de reconhecer um herói. Ou um vilão. Ou um monte de excremento.
 
De volta ao apocalipse, e ainda a correr, lembrei-me daquelas séries sobre invasões de zombies. Não são ficção científica. São uma metáfora de má qualidade para aquilo que já aconteceu. Os zombies somos nós. A massa decisória que não tem capacidade de decisão. Uma humanidade de criaturas que, em vez de torcidas e ensanguentadas nos bracinhos, caminham muito direitas e penteadas, (ou com capachinhos ridículos), completamente estropiadas dos miolos. Desfigurados do poder de análise e de crítica, da capacidade de ponderar responsabilidades e consequências. Deficientes de saber exactamente aquilo sobre o que estamos a opinar. 
É a diferença entre sermos enganados e deixarmo-nos enganar. É a diferença entre algures acreditar num vilão e votar num farsante. Porque um vilão, digno do adjectivo, tem de ter qualidades – o inteligente, o ardiloso, o que for – para as dedicar à prática do mal. Este espécimen não vale nada. Queria fazer uma analogia com cuspo ou assim, mas não há nada. É tudo falso. É, em tudo, falso.

A questão é que o eleitorado que elegeu Donald Trump não nasceu do chão durante os meses da campanha. É formado pelas mesmas pessoas que vêm, há décadas, a proibir a leitura da Alice no País das Maravilhas e do Winnie the Pooh, com o argumento de que dar alma e fala aos animais é pecado. E a geração seguinte vai ser criada por esta até à idade do voto, com a agravante de nunca ter lido a Alice ou o Pooh. É formado pelas mesmas pessoas que se confortam com a ilusão de que são melhores que os outros. Sendo os outros aqueles esquisitos que falam uma língua diferente, ou têm outra cor, ou outra religião, ou outro estilo de vida, que tomam decisões e seguem caminhos diferentes (como se atrevem?). É formado pelas mesmas pessoas que se acham mais merecedoras de recursos, de empregos, de regalias. Que se acham mais senhoras do mundo. Ainda que desconheçam por completo esse mundo que o Universo, por alguma razão, lhes deve. São aquelas pessoas que todos conhecemos e que dizem, muitas vezes, que é preciso mudar ‘as coisas’. Para, logo a seguir, apontarem – nos outros – ‘as coisas’ que é preciso mudar. Nunca em si. Cada uma é, claro, um exemplo acabado de perfeição. Um modelo a replicar e a impor.
 
O pior inimigo é, evidentemente, a ignorância. É investir em reality shows em vez de documentários, e em telemóveis topo de gama em vez de livros. Com isto não quero dizer que só se deve assistir a cinema francês e teatro clássico. Parece estúpido dito assim (e é preciso não entender nada como absoluto), mas a minha geração usufruiu de um treino maravilhoso de intelectualidade televisiva que contava, em horário nobre, com os Monty Python e os Jogos Sem Fronteiras.
Hoje, até os noticiários são burros. E os debates, mais burros ainda. Moderados por gente burra, que convida mais gente burra e, naqueles casos raros em que aparece alguém a fazer um comentário sério, o burro do moderador vem logo distorcer e anular tudo, para que, ‘lá em casa’, os burros (que somos nós) possam entender... ou para que não mudem de canal.

Quanto mais fácil for a manipulação das nossas cabeças, mais fácil será preverter a democracia.
É o mesmo de sempre e basta não fazermos nada. É só esperar e mais nada. A porcaria vai levedando e, em breve, o Donal Trump não passará de uma primeira onda no imenso oceano de esterco em que o futuro nos vai mergulhar.
Nada é assim simples, claro. Mas hoje não dá para mais. Hoje é impossível a poesia e sinto o arrepio de expectativa de algo mau. Não consigo encontrar, em lado nenhum, o herói que me há-de repor a esperança. Nem quero historiar o Apocalipse. Não sei, sequer, como hei-de explicar tudo isto ao meu filho, só assim de conversa e sem notas de rodapé. E sim, o Cristiano Ronaldo seria, de longe, uma melhor escolha para a presidência dos Estados Unidos. Seja como for, é tudo indiferente. Isto tem muitas linhas e ninguém vai ler até ao fim. 


raquel patriarca | nove.novembro.doismiledezasseis

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